Vai uma cervejinha?


Por Renan Santiago
Corredores bebem cerveja. Claro, com muito mais moderação que os sedentários. Mas também, dividindo uma série dos mesmos motivos: sociabilidade, relaxamento, recompensa, hidratação, entre tantos. Mas será que o hábito, ou ritual, beneficia o corredor?
Aspectos clínicos e comerciais são identificados na questão. Um exemplo de mercado é a edição da marca Erdinger, cervejaria alemã fundada em 1886 na cidade de mesmo nome, que comercializa (incluindo patrocínio a provas esportivas de esqui e outros esportes) a variação Alkoholfrei (livre de álcool) do chamado “pão líquido”. Ou seja, uma bebida repleta de carboidratos (recomendados a atletas depois de provas). Essa cerveja traz até em seu rótulo a ilustrações de atletas como incentivo para seu consumo.
Quanto aos aspectos clínicos, convidamos a nutricionista especialista em Fisiologia do Exercício pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Andréa Pessa Fonseca Torres, para responder algumas importantes perguntas, e iniciar um debate.
O2 Por Minuto – Qual a eficiência da cerveja na recuperação hídrica, em comparação a outras bebidas (água, isotônicos, etc.)?
Andréa - Segundo um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Granada, é possível que a cerveja recupere as perdas hídricas e as alterações do metabolismo pós-exercício tão bem quanto a água.
Para chegar a essa conclusão, os cientistas realizaram testes com 16 atletas universitários, com idades entre 20 e 30 anos, em boa forma física, e que alcançavam uma velocidade aeróbica máxima (VAM) de 14 km/h.
Os testes foram realizados em duas etapas, com um intervalo de três semanas entre si. Os atletas foram submetidos a três baterias de corrida, com uma hora de duração cada uma, e pausas de 2 horas para a hidratação. As condições de 35°C e 60% de umidade relativa do ar procuraram simular condições ambientais de temperatura elevada, onde o desgaste físico é maior. Durante os intervalos, os atletas bebiam água ou cerveja (máximo de 660 ml), alternando as bebidas em cada pausa de hidratação para comparar resultados.
Os cientistas, após analisar uma série de parâmetros indicativos como coordenação, atenção, campo visual, tempos de percepção-reação (imuno-inflamatórios, endócrino-metabólicos, psico-cognitivos), além da composição corporal e níveis de hidratação, chegaram à conclusão de que a cerveja permitiu a recuperação hídrica e metabólica dos atletas tão bem quanto à água. Além disso, foi possível observar que as doses moderadas consumidas de álcool não exerceram efeito negativo sobre o efeito de hidratação.

O2 – Sinal que depois do treino, os corredores podem beber sem culpas?

Andréa – É importante ressaltar que o estudo em questão deixa bem claro que esses benefícios só são alcançados com o consumo responsável e moderado de cerveja. Não se trata, portanto, de uma defesa do consumo exagerado da bebida.

O2 – A cerveja contém aminoácidos, minerais e vitaminas em quantidade suficiente para recuperação após um treino/prova?

Andréa – Segundo o mesmo estudo mencionado, a cerveja, além de ser composta por aproximadamente 95% de água, também contém 4g de carboidratos a cada 100 ml e minerais como sódio e potássio, nutrientes considerados de grande importância no processo de reidratação, indispensável na recuperação pós-treino, consenso na literatura científica.
Além disso, a cerveja também possui substratos metabólicos que ajudam na recuperação das perdas ocasionadas pelo exercício físico, como as vitaminas do complexo B e antioxidantes.
O2 – Quais os países que têm essa prática de consumo de cerveja após treinos/provas?
Andréa – A Espanha é um bom exemplo de país com esta prática. Existe até um site chamado Beer Runners.